Em 2010, uma campanha gaiata na TV chamou a atenção para orúgbi, uma modalidade que, apesar do parentesco com o futebol, era ignorada no Brasil. Carregados no deboche, os anúncios mostravam uma entrevista coletiva pós-jogo com apenas um repórter presente, ou ainda a mulher de um jogador que fazia o papel de fã pedindo autógrafo só para afagar o ego do marido atleta. Por seu caráter insólito, os comerciais repercutiram bastante. Decorridos cinco anos, a autoironia ficou para trás e o jogo da bola oval virou assunto sério.

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Impulsionado por seu retorno às Olimpíadas, após mais de 90 anos de ausência, o rúgbi dá sinais flagrantes de expansão no país do futebol. Desde a veiculação da jocosa campanha, o número de praticantes do esporte no país passou de 10 mil para 60 mil pessoas. No mesmo período, o orçamento da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) saltou de R$ 30 mil para R$ 20 milhões. No que se refere ao campo, o desempenho das equipes nacionais tem sido um alento para um futuro melhor. A seleção masculina passou a disputar o Circuito Mundial e a feminina faturou uma inédita medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em julho. “A Rio 2016 deu muita exposição ao rúgbi. Uma pesquisa mostrou que há 23 milhões de brasileiros interessados na modalidade”, diz o administrador argentino Agustín Danza, que jogou por 25 anos em seu país e no ano passado tornou-se o principal dirigente da confederação brasileira. Um fator mais imediato ajuda a pôr o esporte em evidência. Está em disputa na Inglaterra a Copa do Mundo de rúgbi, principal competição da modalidade. Em audiência global acumulada, entre as disputas internacionais fica atrás só das Olimpíadas e da Copa de futebol.

Num país onde a gestão esportiva tem um caráter imperial, com o predomínio de dirigentes centralizadores que se perpetuam no poder, a experiência da CBRu segue noutra direção. O modelo de administração é mais dinâmico e moderno. Para assumir a função de principal executivo da entidade, Danza passou por uma seleção que avaliou 40 candidatos. Ele se submete ao conselho administrativo, a instância máxima, formada por 12 membros, incluindo um empresário, um executivo de banco, um financista e um advogado respeitados em suas áreas, além de ex-atletas e representantes dos jogadores e dos árbitros. As decisões estratégicas passam por esse colegiado. A execução da estratégia cabe ao executivo-chefe, devidamente remunerado. O plano estratégico tem metas para os próximos oito anos. “Estamos em evolução, e nosso objetivo é disputar a Copa do Mundo de 2023”, diz o dirigente.

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Criado no século XIX na Inglaterra, o rúgbi é uma modalidade que se profissionalizou tardiamente. Somente há 20 anos os jogadores assinaram seus primeiros contratos. No Brasil, a profissionalização é ainda mais recente, desde 2013. Hoje, funcionam no país seis centros de treinamento de alto rendimento, espalhados por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, onde há dois deles. Os centros reúnem 350 atletas que treinam até quatro vezes por semana. Para aprimorar o trabalho, a confederação importou profissionais estrangeiros para diversos postos da comissão técnica. As seleções são treinadas por técnicos que vieram da Argentina e da Nova Zelândia, país que está para o rúgbi assim como outrora o Brasil já esteve para o futebol. Poder se reunir em centros de treinamento é um luxo recente. Ainda está na lembrança dos atletas mais experientes o longo período de vacas magras em que a abnegação era requisito básico para praticar o esporte. A seleção masculina já encarou viagens de ônibus para disputar torneios nos países vizinhos, algo inimaginável hoje. “Antes era tudo por nossa conta. Mas quem acreditou no rúgbi acabou fortalecido”, lembra Lucas Duque, o Tanque, de 31 anos. Entre as incumbências de Tanque e seu irmão Matheus, ambos formados em medicina, estava suturar os companheiros vítimas de trombadas, uma cena comum nos gramados. Com as mulheres, o perrengue não era diferente. Com o objetivo de bancar um giro pelo exterior em 2009, as jogadoras do escrete posaram para um calendário sensual.

Para o jogo da bola oval se consolidar no coração dos brasileiros, o torcedor deve se resignar: estamos a anos-luz da Argentina, que chega a incomodar potências do esporte como Nova Zelândia e África do Sul. Menos mal que no “sevens”, uma configuração reduzida do jogo, com sete jogadores de cada lado, o Brasil faz frente com os vizinhos. O formato será o usado nas Olimpíadas do Rio, com partidas agendadas para o complexo de Deodoro. O estilo mais concorrido do rúgbi agrupa 15 jogadores em cada time, como é o caso da Copa do Mundo. Sua edição atual reúne 20 países, entre eles a Nova Zelândia, representada pelos temidos All Blacks. Um dos encantos do rúgbi é que nações de pouca representatividade no panorama político-ecônomico internacional têm boa estatura no esporte. Fiji, Tonga e Samoa, respectivamente 9º, 11º e 12º  do ranking mundial, estão na Copa do Mundo. Quem sabe em 2023, como planeja o dirigente Agustín, o Brasil se junte a eles.

 

Fonte: Época